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Mostrando postagens de julho, 2026

Escalas que despertam: a primeira vez em Dubai rumo às Maldivas

 O avião toca o chão em Dubai e, por alguns segundos, você não sabe se está mais perto das Maldivas ou de outro planeta. Lá fora, antes de pousar, o deserto parecia um tecido bege, sem costura. Lá dentro, agora, o aeroporto é o contrário: brilho, linhas, placas, gente apressada em todos os idiomas. Você levanta do assento com as pernas meio bambas — não só pela mesma altura que ainda te apavora, mas porque é a primeira vez. O corpo, que passou o voo inteiro com medo do céu, ainda está aprendendo o verbo “voar”. A porta se abre, e o ar condicionado do finger te envolve com aquele cheiro de lugar fechado e limpo demais, um misto de carpete, perfume caro e metal. O corredor é longo, iluminado, e você segue o fluxo, só para não ser o único parado. Tanta gente indo e vindo que a sola do seu sapato quase perde o próprio ritmo. À esquerda, uma cabine de vidro com alguém sentado atrás de um computador; à direita, uma placa de letras grandes, firmes, azuis: TRANSFER, CONNECTION, ARRIVALS. ...

Do Saint Charbel ao Índico: uma alma com medo de altura

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  Foto de Jeffry Surianto no Pexels Abro a porta do apartamento no Saint Charbel como quem abre um limiar. Não é só a madeira que gira: é um medo antigo que tenta sair comigo, agarrado na barra da minha calça. O corredor está silencioso, mas eu ouço o que não está ali: o ronco distante de turbinas, o aviso de cinto afivelado, aquele “senhores passageiros” que sempre vem antes do meu coração disparar. Eu moro aqui, no centro de São Paulo, entre buzinas e sirenes, mas o barulho que me acompanha hoje é outro, é o barulho que ainda não começou. Fecho a porta e verifico a maçaneta duas vezes. Não é pela segurança do apartamento — é por hábito de quem gosta de controlar pelo menos alguma coisa, já que lá em cima, a dez mil metros, não vou controlar nada. Do elevador até a rua, a cidade me recebe com o que tem: cheiro de gasolina, fumaça de escapamento, um grito qualquer vindo de uma janela, o pregão de alguém vendendo café na esquina. Eu, que nas próximas horas vou cruzar continentes, ai...

Os 15 quilômetros que ensinam o que o mapa não mostra

Há um caminho que não está em nenhum aplicativo de rotas. Ele não aparece no Waze, não tem avaliação no Google, não possui fotos georreferenciadas. Mas ele existe. Existe na memória dos pés que o percorreram, no cheiro da terra molhada, no som das portas que se abriam antes mesmo de eu bater. Era um distrito. Minha casa. E a casa do meu avô, na zona rural, ficava a 15 quilômetros de distância. Distância que hoje, para um carro, é nada. Para uma criança, era um mundo. Para a alma, era uma iniciação. Eu não fazia o caminho sozinho. Ia com meu pai. Meu pai não era homem de muita conversa. Mas na estrada ele falava — e falava do jeito certo: apontando. Apontava a ave que cruzava o céu e dizia o nome dela. Parava diante de um bicho no caminho e me deixava olhar. Dizia de quem era cada terra que a gente atravessava, quem morava em cada casa que aparecia ao longe. Era a década de 1980, sertão da região de Angicos, e meu pai ia me entregando o mundo aos pedaços, sem discurso, sem lição: só ...