Do Saint Charbel ao Índico: uma alma com medo de altura

 

Foto de Jeffry Surianto no Pexels: https://www.pexels.com/pt-br/foto/aeroporto-aviao-aeronave-viagem-20277062/

Abro a porta do apartamento no Saint Charbel como quem abre um limiar. Não é só a madeira que gira: é um medo antigo que tenta sair comigo, agarrado na barra da minha calça.

O corredor está silencioso, mas eu ouço o que não está ali: o ronco distante de turbinas, o aviso de cinto afivelado, aquele “senhores passageiros” que sempre vem antes do meu coração disparar. Eu moro aqui, no centro de São Paulo, entre buzinas e sirenes, mas o barulho que me acompanha hoje é outro, é o barulho que ainda não começou.

Fecho a porta e verifico a maçaneta duas vezes. Não é pela segurança do apartamento — é por hábito de quem gosta de controlar pelo menos alguma coisa, já que lá em cima, a dez mil metros, não vou controlar nada.


Do elevador até a rua, a cidade me recebe com o que tem: cheiro de gasolina, fumaça de escapamento, um grito qualquer vindo de uma janela, o pregão de alguém vendendo café na esquina. Eu, que nas próximas horas vou cruzar continentes, ainda estou preso no chão: no concreto, no asfalto, nas linhas dos trilhos do metrô que passam debaixo de tudo isso, invisíveis.

O táxi chega. Eu entro como quem entra num bote que vai me levar até o navio grande. GRU é o porto, o avião é o mar, e eu sou um passageiro que não sabe nadar.

O motorista pergunta: — Vai pra onde? Eu respondo: — Aeroporto. Férias. Ele insiste: — Vai pra onde mesmo? Eu hesito só um segundo, como se dizer o nome fosse compromisso demais: — Maldivas.

Ouvir a palavra me causa um efeito estranho. Maldivas parece nome de sonho caro, coisa de revista, foto com mar azul impossível. Mas na minha boca ela vem misturada com outra imagem: asas enormes cortando o céu, turbulência, luz de “apertar cintos” acesa. Maldivas, para mim, é uma ilha cercada de medo por todos os lados.


A Marginal passa em fragmentos pela janela: ponte, rio barrento, prédio espelhado, outdoor, caminhão carregado. São Paulo é concreta, pesada, previsível na sua confusão. Eu sei como ela cai: deslizamento, enchente, prédio abandonado. Eu não sei como o céu aguenta tanto peso.

Enquanto o carro avança, eu lembro do momento em que comprei a passagem da Emirates. A tela do computador, o cursor piscando, meu dedo duro sobre o mouse. “GRU – MLE”, estava escrito. Guarulhos até Malé. Do lado, o horário: saída à noite, chegada no outro dia, escala em Dubai.

Cliquei com a mesma sensação de quem assina um contrato sem ler todas as cláusulas. Só depois de confirmar, olhando aquela promessa de serviço impecável, de poltrona que vira cama, de jantar servido em bandeja com sorriso, é que a ficha caiu: nada disso tira do ar o fato bruto de que eu vou estar suspenso.


Chegando em GRU, o aeroporto se estende como uma cidade artificial. Piso brilhante, gente arrastando malas, cheiro de café requentado, luz branca demais que tenta disfarçar o cansaço de todo mundo.

Cada balcão é um destino. Eu passo por placas que anunciam voos para lugares que nunca pensei em ir: Doha, Frankfurt, Bogotá. E ali, no painel, encontro o meu: “Dubai – Emirates – Embarque às 22h”.

O nome da companhia me traz imagens de luxo, lençóis brancos, telas grandes com filmes do mundo inteiro. Mas meu peito não se convence. Meu peito não pensa em champagne, pensa em altitude.

É curioso: eu sei que tem estatística, que avião é seguro, que milhões de pessoas fazem isso todos os dias. Mas nenhuma estatística conversa com o meu estômago. Ele continua encolhido.


Na fila do check-in, eu olho para as pessoas. Tem um grupo com camisa igual, animado, falando alto, discutindo quais fotos vão postar primeiro. Tem um casal segurando um bebê que dorme sem saber que vai atravessar oceanos sem esforço. Tem um senhor sozinho, bolsa pequena, cara de quem já fez esse caminho tantas vezes que o trajeto virou rotina.

E tem eu, com minhas mãos suadas segurando o passaporte, como se fosse a única coisa que me ancora na realidade.

Quando chega minha vez, a funcionária da Emirates me recebe com um sorriso treinado que, naquele momento, é quase abraço: — Boa noite. Vai até Malé? — Vou — respondo — com escala em Dubai. Ela digita, olha a tela, marca o assento. Pergunta se eu prefiro janela ou corredor.

E aí vem a primeira batalha interna da viagem.

Janela me dá horizonte: nuvens, mar, cidades lá embaixo, a comprovação de que ainda existe mundo mesmo quando eu estou longe do chão. Mas janela também me dá visão do que eu mais temo: asa, céu, eventual turbulência balançando tudo.

Corredor me dá fuga: a sensação de que posso levantar, andar, fingir que estou menos aprisionado. Mas corredor me tira a paisagem, e eu fico só com o barulho.

Eu penso rápido. A voz sai antes da reflexão terminar: — Janela, por favor.

Ela imprime o cartão de embarque, me entrega como quem passa um bilhete de parque de diversões. Eu seguro como quem segura um exame médico.


Lá dentro, depois do raio-x, da revista, da fila para não levar nada metálico além do meu próprio medo, eu encontro o portão de embarque. O número está lá, grande, numa placa, como se fosse uma sentença: “Portão 32”.

Ao fundo, atrás do vidro enorme, o avião descansa. É um bicho grande, branco, com o nome “Emirates” em letras largas no corpo. As cores da bandeira nos detalhes da cauda, as turbinas como dois mundos redondos que vão girar forte demais.

É esquisito chamar de descanso esse momento em que ele parece tão tranquilo. Porque eu sei que, daqui a pouco, esse corpo gigantesco vai correr, vai levantar, vai desafiar tudo o que meu instinto considera razoável.

Eu fico ali, parado, olhando para aquele metal, tentando imaginar o que acontece por dentro quando ele está no ar. Tubos escondidos, fios, parafusos, comandos, checklists. Pessoas que estudaram anos para garantir que eu não morra. Pessoas que nunca me viram, mas vão cuidar de mim.

E eu sinto uma gratidão estranha, misturada com pavor.


Chamam o embarque por grupos. Primeiro prioridade. Depois famílias com crianças. Depois resto do mundo, organizado por filas.

Quando chega meu grupo, o scanner lê o código de barras do meu cartão de embarque com um apito seco. Um bip. Um bip que diz: “Você não volta mais para o chão até o destino”.

Eu entro na ponte de embarque como quem atravessa um túnel entre dois estados de espírito. Por fora, parece só um corredor metálico. Por dentro, é a passagem para outra forma de existir: suspenso.

Do lado esquerdo, o casco do avião. Do lado direito, nada além de vento e o vazio que a minha cabeça insiste em imaginar. A temperatura muda, o som também. Longe das vozes da sala de embarque, o mundo começa a se encurtar.

Quando eu finalmente piso dentro da cabine, tudo é acolhimento ensaiado: luz suave, moqueta macia cobrindo o chão, poltronas alinhadas como fileiras de expectativa. A equipe de bordo da Emirates me recebe com uma educação que quase desarma: — Welcome on board.

Eu respondo com um “thanks” tímido, com o inglês atravessado pelo peito acelerado.


Procuro meu assento. Janela, como pedi. Sento.

Primeiro gesto: mão no apoio de braço, como se fosse outra barra de segurança. Segundo gesto: cinto. Eu fecho o cinto com o clique que vai acompanhar toda minha ansiedade durante o voo.

Ao meu lado, um desconhecido mexe no celular com naturalidade. Para ele, o pouso em Dubai parece só um trecho de agenda. Para mim, é o momento em que eu vou reaprender a respirar.

A tela à minha frente mostra o mapa da rota: uma linha que sai de São Paulo, cruza o oceano, passa por cima de países cujo nome eu mal sei pronunciar, e chega a Dubai. Depois, outra linha, mais curta, de Dubai até Malé.

A distância, apresentada assim, parece coisa de videogame. Uma animação em dois traços. Mas eu sei o que essa linha significa: horas de ar, horas de turbina, horas sem chão.


Enquanto o embarque termina, minha cabeça pula para adiante, para o que me espera depois do medo. Eu me vejo chegando às Maldivas, descendo num aeroporto rodeado de água azul que parece pintada, sentindo sal na pele.

Imagino a primeira vez em que meus pés vão tocar aquela areia quase branca, os bangalôs de madeira avançando sobre o mar, o cheiro de peixe grelhado com temperos que eu não conheço, o sol se pondo com cores exageradas.

Imagino eu, que agora tenho medo de subir, flutuando de máscara e snorkel sobre recifes de corais, olhando para baixo e vendo peixes coloridos como se fossem desenhos animados ao vivo.

É esse futuro que me empurra agora. Não é a certeza de segurança. É a promessa de beleza.


O comandante fala pelo sistema de som. A voz é calma, levemente distante, com um sotaque que denuncia outra origem. Ele diz a rota, o tempo de voo, as condições meteorológicas, a temperatura no destino. Fala de números. Para mim, cada número é uma chave de ansiedade: “altitude de cruzeiro”, “horas de voo”, “temperatura lá fora”.

Mas ele também diz algo que me entrega uma pequena paz: — Qualquer turbulência prevista é leve e dentro do padrão.

Dentro do padrão. Essa expressão vira mantra.

Respirar. Fecho os olhos por alguns segundos. Tento sentir o peso do corpo contra a poltrona, como se pudesse memorizar essa sensação antes de ela se transformar em leveza forçada.

O avião começa a se mover. Devagar. Quase delicado. Primeiro um arrastar suave até a pista. Lá fora, por entre a fresta da janela, eu vejo luzes alinhadas, carros de apoio, veículos pequenos atravessando a noite de GRU com pressa silenciosa.

A asa está ali, enorme, ocupando boa parte da minha visão. Ela parece pesada demais para voar. Parece obra de engenharia, não de magia. E isso me conforta um pouco: alguém fez, testou, ajustou. Não é um truque.


Na cabeceira da pista, o avião para. Alguns segundos de imobilidade que duram mais do que deveriam. Eu sinto o silêncio tenso da cabine. Até quem não tem medo parece prender a respiração nessa hora.

De repente, o som das turbinas aumenta. Não é um barulho, é uma presença. Um rugido contido, um empurrão invisível que começa a vibrar no chão, nos braços da poltrona, no ar.

Eu seguro o apoio com força. A mão sua, o coração corre. O mundo inteiro parece se inclinar para frente.

E então, o movimento.

O avião dispara na pista como se estivesse fugindo de algo. A velocidade cresce, a paisagem pelas janelas vira um borrão de luzes, placas, sombras. O corpo é empurrado para trás, preso pela gravidade que tenta fazer o seu trabalho enquanto outra força, minuciosamente calculada, luta contra ela.

Há um segundo específico — e eu sinto quando ele chega — em que o chão deixa de fazer parte da equação. É quase imperceptível: um alívio na pressão, uma mudança sutil na vibração.

Subimos.


Meu medo quer dizer que esse é o momento em que tudo poderia dar errado. Mas a realidade que se impõe pela janela é outra: o aeroporto vai ficando menor, as luzes viram pontos, a cidade vira trama de vaga-lumes, as avenidas se transformam em veias luminosas.

São Paulo, que sempre me pareceu enorme, vira uma maquete sob nuvens rasgadas. O rio, que lá embaixo é problema, aqui em cima é desenhinho torto.

Há algo de humilhante nessa perspectiva. Não humilha os lugares — humilha a minha certeza de controle. Eu entendo, com o corpo, que sou menor do que imaginava.

O avião continua subindo. As nuvens vêm. Primeiro como algodões, depois como uma camada inteira. Quando atravessamos, o mundo lá fora vira branco. Um branco que não é vazio, é densidade. Eu imagino gotas de água batendo na fuselagem, gelo, temperatura negativa.

E lá dentro, uma luz amarela suave, um corredor estreito, gente mexendo em revistas, ajustando travesseiros, apertando cintos.

Eu, ainda com medo, sinto uma coisa nova misturada na garganta: uma admiração involuntária.


Horas depois, no escuro do voo, com a cabine já em clima de madrugada artificial, as luzes baixas, bandejas recolhidas e parte das pessoas dormindo, eu olho para a tela que mostra o mapa de novo.

A linha anda. Saiu do Brasil, entrou no oceano, aproximou-se de outros continentes. Lá fora, é noite em algum lugar, amanhecer em outro, tempestade mais distante em uma região que nós contornamos.

Eu não vejo nada disso pela janela. Só um céu escuro, pontilhado aqui e ali por alguma luz distante — talvez outra aeronave. Mas eu sei que estamos passando por cima de mundos inteiros.

E me dá um espanto quase infantil pensar que eu, que tenho medo de avião, estou aqui, sendo carregado por esse bicho de metal, cruzando terra e mar, indo encontrar uma ilha minúscula no meio do Índico.


Quando, muitas horas depois, eu finalmente desembarcar em Malé, o ar vai bater diferente. Vai ter cheiro de maresia, de umidade quente, de sal grudando no rosto. A luz do sol vai pesar mais, a cor do mar vai parecer truque de edição.

Eu vou sair do avião ainda com o resquício do medo grudado nas costas, mas ele vai se confundir com outra sensação: um alívio tão grande que quase vira alegria.

Talvez, ao olhar para o entorno — pista cercada de água, barcos ao longe, hidroaviões armando seus voos por cima de recifes — eu entenda de outro jeito o caminho que fiz.

Porque para chegar ali, naquele pedaço de planeta onde a vida se organiza em torno do mar, eu precisei atravessar meu próprio continente interno de receios.

Do apartamento no Saint Charbel, no centro de São Paulo, até as Maldivas, não foi só uma viagem de GRU a MLE pela Emirates. Foi um trajeto em que o chão conhecido foi sendo trocado por paisagens estrangeiras, e o medo, aos poucos, foi aprendendo a dividir espaço com o encantamento.


Talvez eu ainda tenha medo no próximo voo. Provavelmente vou ter.

Mas, naquela noite em que o avião deixou São Paulo para trás e o mapa da tela desenhou uma linha até Malé, eu percebi uma coisa simples: alguns lugares exigem da gente mais do que dinheiro e tempo.

Exigem coragem.

E é justamente por isso que, quando a turbina ronca e o corpo descola do chão, o coração apressa, mas a alma, lá no fundo, sabe: tem viagem que não é só deslocamento.

É salto.

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